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A logística na crise do Covid-19

A grave crise provocada pela pandemia do Coronavírus (Covid-19) vem gerando repercussões diversas e multidimensionais no cotidiano econômico e social dos países afetados. O contexto de isolamento social foi uma necessidade real que se impôs para buscar achatar a curva de contágio e dar maior tempo aos sistemas de saúde para se organizarem. Do ponto de vista dos sistemas produtivos de bens e serviços, os impactos da crise estão também refletidos diariamente na imprensa. Nesse sentido, a logística de abastecimento será objeto de breves considerações por conta dos riscos associados a distúrbios sociais.

Uma matéria da Exame, por exemplo, mostrou que o setor de transporte se adaptou para manter o abastecimento. O Brasil registrou uma queda de 26% no volume de cargas transportadas por caminhões nos dias 23 e 24 de março em relação ao movimento considerado normal. No entanto, alguns desafios se fazem presentes. Embora o transporte tenha sido declarado um serviço essencial, restaurantes à beira das estradas foram fechados, algo que tornou a vida dos caminhoneiros mais complicada. O setor de transporte é um setor fragmentado, familiar e pouco digitalizado. Na atual crise, a logística digital precisará crescer junto com o comércio eletrônico. O faturamento do varejo foi duramente atingido no Brasil em um contexto de descoordenação geral de ações federativas na crise do Covid-19. Os governos estaduais foram obrigados a ocupar o vácuo de liderança e coordenação deixado pelo governo federal no primeiro momento da crise. Ainda persistem problemas de coordenação institucional de esforços e planos. Em um contexto de “economia de guerra”, os mercados não conseguem dar respostas satisfatórias. 

Outra matéria jornalística, desta vez do Folha Vitória, revelou que os preços de produtos nos supermercados disparam no Estado do Espírito Santo. Os produtos importados ficaram mais caros por causa da desvalorização cambial do real. No entanto, os produtos nacionais também acompanharam o viés de alta. De acordo com a respectiva matéria, em alguns estabelecimentos, o pacote de 5 kg de açúcar saltou de R$9 para R$15. Também subiram de preço o leite, o feijão, o arroz e o óleo de soja, entre outros produtos. Para fabricar alguns produtos, há a necessidade de insumos importados. A metade do trigo consumido no Brasil é importada. O superintendente da Associação Capixaba de Supermercados (Acaps), Hélio Schneider, por sua vez, disse ao Folha Vitória que, em alguns casos, os produtos fabricados no Brasil, sem relação com o valor do dólar, estão até 50% mais caros do que antes da crise e ele afirmou ainda que os fornecedores da indústria alimentícia foram os que subiram os preços.

Em uma nota escrita e publicada com colegas, apontamos para os riscos e as perspectivas em curso de elevações de preços nos supermercados. Ressaltamos então que em uma economia de guerra contra a pandemia do Covid-19, a coordenação geral de esforços do governo federal se fazia muito necessária no Brasil. Dissemos ainda que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, em inglês) esperava interrupções nas cadeias de suprimento de alimentos em diversos países e regiões do mundo em abril e maio. Como recomendação geral da FAO, destacamos que os países devem buscar atender às necessidades alimentares imediatas de suas populações vulneráveis e, portanto, devem aumentar os seus programas de proteção social.

Nesse sentido de preocupação com a vida humana, a coordenação institucional de esforços federativos precisa levar em conta os aspectos logísticos de abastecimento. Afinal, já estamos enfrentando diversos tipos de problemas nas cadeias de suprimentos globais, que revelam o grau de autonomia relativa dos países, e inclusive enfrentamos grandes desafios na logística doméstica de abastecimento de alimentos. O Brasil e os seus formuladores de políticas públicas estão tendo uma boa oportunidade de repensar a razoabilidade da construção de reservas estratégicas nacionais de capacidades produtivas de bens e serviços. A necessidade de investimentos públicos em infraestrutura logística integra essa importante reflexão. 

Sobre o autores

Graduado em Engenharia de Produção pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (julho de 1997), mestre em Informática pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (setembro de 2002) e doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (outubro de 2005). Possui interesse acadêmico em gestão e organização econômica.

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