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Meta-ignorância, ensino, pesquisa e extensão.

Meta-ignorância é um conceito que define a situação a qual um sujeito está submetido a um grau tão extremo de ignorância que nem mesmo percebe sua ignorância. Trata-se, portanto, de situação caracterizada pela ignorância da ignorância. Dunning3, em seu estudo sobre a meta-ignorância, descreveu um conceito, denominado efeito Dunning-Kruger, pelo qual pessoas de baixa performance em muitos domínios sociais e intelectuais permanecem inconscientes sobre seu déficit de conhecimento.

O efeito Dunning-Kruger traz um duplo prejuízo aos meta-ignorantes: o conhecimento incompleto e equivocado leva-os a cometer erros e, além disso, os impedem de reconhecer quando erram. Uma resolução positiva para esse efeito envolve um tipo específico de processo de ensino, por meio do qual há o desenvolvimento da metacognição.

A metacognição pode ser definida como a regulação das atividades cognitivas nos processos de aprendizagem quando realizada por parte dos próprios estudantes. Pode ser utilizada como sinônimo de ‘autorregulação da aprendizagem’, sendo considerada um do mais eficazes preditores do sucesso acadêmico. Nesse mesmo sentido, os estudantes metacognitivos são capazes de reconhecer quando estão efetivamente aprendendo e empregam o uso de estratégias adicionais para controlar ou monitorar a sua motivação.1,5

Desalinhado das possibilidades providas por práticas que desenvolvam habilidades metacognitivas, o processo de ensino, denominado tradicional, enfatiza a transmissão do conhecimento em via de sentido único: do livro para o professor, do professor para o aluno. Nesse sentido, Freire4, afirma que “O educador, que aliena a ignorância, se mantém sempre em posições fixas, invariáveis. Será sempre o que sabe, enquanto os educandos serão sempre os que não sabem. A rigidez destas posições nega a educação e o conhecimento como processo de busca”. No processo de ensino tradicional, a comunicação e a interação entre pares são interpretadas, na maioria das vezes, como falta de respeito, dispersão e indisciplina e, dessa forma, o interesse pela busca do conhecimento, ao eclodir, nas salas de aula, individual e coletivamente, se desgasta, se decepciona. Além disso, nesse tipo de processo, não é possível para o estudante avaliar o seu próprio grau de ignorância. É nesse contexto que as atividades de pesquisa e extensão se prestam a oferecer oportunidades para que os docentes desenvolvam competências que vão além da educação tradicional, tornando-os competentes para mitigar a perda de interesse dos estudantes para com os estudos.

A indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão já faz parte do rol das obrigações constitucionais desde 1988: o artigo 207 da Constituição Brasileira dispõe que “(…) as universidades […] obedecerão ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”. Equiparadas, essas funções básicas merecem igualdade de tratamento por parte das instituições de ensino superior, que, do contrário, violarão o preceito legal. Porém, mesmo que essa obrigação legal já vigore há 30 anos, não há garantias de que os docentes estejam desenvolvendo competências para atuar nessas diversas funções.2,6

Portanto, parece claro que as instituições que deveriam realizar as atividades de ensino, pesquisa e extensão, mas que privilegiam a dimensão do ensino, caminham de forma equivocada, tangenciando a ilegalidade. Ainda mais preocupante é o entendimento de que um processo de ensino apartado de esforços nos campos da pesquisa e da extensão, embora possa até minimizar a ignorância em determinados conteúdos, fatidicamente, leva à produção de meta-ignorantes.

Referências:

1. Alexander, P. A. (2008). Why This and Why Now? Introduction to the Special Issue on Metacognition, Self-Regulation, and Self-Regulated Learning. Educational Psychology Review, 20(4), 369–372.

2. Dourado, Pérola Cavalcante, Gondim, Sônia Maria Guedes, Loiola, Elisabeth, Ferreira, Aleciane da Silva Moreira, & Alberton, Gisele Debiasi. (2018). Aprendizagem individual, suporte organizacional e desempenho percebido: um estudo com docentes universitários. Educação em Revista, 34, 178-191.

3. Dunning, D. (2011). The dunning-kruger effect. On being ignorant of one’s own ignorance. Advances in Experimental Social Psychology, 44, 247-296.

4. Freire, P. (1979). Educação e mudança. Tradução de Moacir Gadotti e Lilian Lopes Martin. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

5. Lima Filho, Raimundo Nonato, & Bruni, Adriano Leal. (2017). Metacognition in entrepreneurs: psychometric diagnostic associated to age and sex. REAd. Revista Eletrônica de Administração (Porto Alegre), 23 (spe), 345-370. 

6. Moita, Filomena Maria Gonçalves da Silva Cordeiro Moita, & Andrade, Fernando Cézar Bezerra de. (2009). Ensino-pesquisa-extensão: um exercício de indissociabilidade na pós-graduação. Revista Brasileira de Educação v. 14 n. 41 maio/ago, 269-280.

Sobre o autores

Doutor em Administração pela Universidade Metodista de Piracicaba - UNIMEP (2016). Mestre em Ciências Contábeis pela Fundação Instituto Capixaba de Pesquisas em Contabilidade, Economia e Finanças - FUCAPE (2006). Bacharel em Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Espírito Santo - UFES (2000), Bacharel em Administração pela Universidade Federal do Espírito Santo - UFES (1995). Autor de livro, capítulos de livros e artigos em eventos e periódicos nacionais e internacionais. Pesquisador Líder do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Gestão - NEPGEST. Pesquisador Líder do Grupo de Estudo em Manufatura Digital - GEM@D. Editor-Chefe da RINTERPAP - Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (ISSN: 2675-6552). Docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo - IFES, desde 2008. Docente do Mestrado em Gestão Pública da Universidade Federal do Espírito Santo - UFES, desde 2018. Tem foco nas pesquisas do campo das Interdisciplinaridades, da Gestão Pública, bem como, do Comportamento Humano nos contextos: organizacional, do consumo e da aceitação e uso de novas tecnologias.

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