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Pesquisa Operacional e COVID-19: estamos formando bons soldados?

Vivemos em um período de grandes reviravoltas em termos de mudanças culturais na nossa sociedade, seja no âmbito social, profissional ou governamental. O convívio das pessoas, as condições de trabalho e as restrições econômicas têm necessitado novas formas de lidar com essas adversidades que uma crise pandêmica pode acarretar. Frente a escassez de recursos naturais e financeiros, surge a necessidade de realizar melhor utilização de recursos, seja na produção, logística ou administração organizacional. E nesse contexto, o uso de metodologias capazes de suportar rápidas decisões organizacionais é primordial para o melhor aproveitamento ao que as empresas e os governos têm com imediata disponibilidade e necessidade. Atrás de um futuro restrito que se torna cada vez evidente, os modelos de pesquisa operacional se colocam como ingredientes que poderão dar todo um sabor menos amargo aos prejuízos aparentes, bem como aqueles que desconhecemos.

Os estudos mais formais de pesquisa operacional surgiram durante a Segunda Guerra Mundial quando a Inglaterra resolveu tomar suas decisões com base científicas para melhor utilização dos recursos. Logística e produção durante a guerra foram suportadas por modelos mais apropriados para decisões ágeis e precisas. Ao final da guerra, os modelos de decisão em pesquisa operacional suportaram operações militares, adaptados para uma melhorar eficiência e produtividade no setor civil. Desde então, diversas pesquisas evoluíram ao ponto da pesquisa operacional apoiar a produção, logística, administração e economia.

No artigo de prof. dr. Rodrigo L. Medeiros, sobre a logística na crise do Covid-19, é evidenciado que precisamos considerar a atual situação como uma economia de guerra contra a pandemia do Covid-19, convertendo os esforços para evitar interrupções de cadeias de suprimentos de alimentos, atendendo necessidades imediatas da população. Além disso, é importante coordenar o setor produtivo a atender necessidades de itens essenciais para o enfrentamento dessa crise. Como apontando no artigo “O Covid-19 E As Possibilidades De Reconversão Produtiva”, dos professores Luiz Henrique L. Faria, Rafael Buback Teixeira e Rodrigo L. Medeiros,  uma reconversão produtiva nesse momento guerra contra a pandemia é essencial, objetivando as empresas na produção de itens que, em sua escassez, poderão agravar ainda mais a situação, como para a fabricação de máscaras e respiradores. Como pode ser visto, estamos vivendo uma guerra, literalmente, mesmo que por um aspecto diferente ao ocorrido na Segunda Guerra Mundial. Entretanto, decisões de caráter operacional do governo são primordiais para evitar maiores prejuízos, principalmente para o pequeno e médio produtor ou empresário.

Assim, é observado que a busca por meios científicos para as decisões é de suma importância para melhorar o aproveitamento dos recursos. As empresas e os governos devem se ater a essas necessidades e investir em pesquisa e desenvolvimento (P&D), mesmo em época de crise. O P&D é mais evidente nas grandes empresas em virtude das disponibilidades financeiras imediatas para o investimento. Para as pequenas e médias empresas observa-se que há uma falta de melhor amparo governamental e a ausência, cada vez maior, de profissionais competentes para a elaboração dos modelos de decisão completos. É importante que os modelos decisórios sejam elaborados com base em conhecimento técnico e científico. Lógica, matemática, estatística, programação, administração, produção e logística são alguns dos itens que precisam ser levados em conta por esses cientistas no contexto aqui discutido. Nesse aspecto, a formação de profissionais realmente capazes de lidar com as adversidades na elaboração desses modelos decisórios, não somente para as grandes empresas, deve ser, primeiramente, suportada pelos Engenheiros de Produção, que no exterior, são conhecidos como Engenheiros Industriais.

Nos argumentos da SOBRAPO e da ABEPRO, a pesquisa operacional não deve ser somente suportada pelos Engenheiros de Produção, mas deve ser um esforço em equipe, multidisciplinar, que pode demandar natural interação entre as áreas de Administração, Engenharias, Computação e Matemática. A programação matemática, simulação, teoria dos jogos, teoria das filas, analise de redes, teoria da decisão, aprendizado de máquina e ciência dos dados são vistos na pesquisa operacional como poderosa capacidade de apresentar soluções efetivas. Assim, o Engenheiro de Produção deve ser capaz de atuar e interagir em todas essas metodologias de maneira fluida, para resolver adversidades com proposições utilizando modelos de decisão complexos. Apoiando-se na Resolução nº 232, de 18 de setembro de 1975, do CONFEA, para tornar os projetos viáveis, o Engenheiro de Produção deve considerar diversas características dos sistemas produtivos e logísticos, otimizando uso de recursos, seja matéria-prima, energia, pessoal, equipamentos e recursos financeiros, nos níveis de qualidade exigidos, respeitando o meio ambiente e a sociedade, com eficiência e custo reduzido.

Entretanto, em virtude da resolução do CONFEA nº 1.010, de 22 de agosto de 2005, a última década foi marcada por queda de carga horária de matérias quantitativas nos cursos de Engenharia de Produção, observado nos diversos projetos pedagógicos de curso (PCC), tanto em instituições federais quanto particulares. Isso acarretou um precarização muito acentuada dos currículos de Programação, Pesquisa Operacional e Simulação nos cursos de Engenharia de Produção, o que nos leva a uma situação que se agrava pela falta de futuros profissionais capazes de suportar a produção de soluções efetivas frente aos nossos cenários que estamos enfrentando. Essa tendência contrária aos propósitos reais do Engenheiro de Produção quanto a otimização do uso de recursos já permite uma reversão da tendência, com a suspensão da resolução nº 1010 em 2015 e dos esforços de grupos de trabalho (GT) de Graduação da ABEPRO, formados por coordenadores e profissionais em Engenharia de Produção no intuito de fortalecer os currículos.

É importante, daqui para frente, pressionados por uma crise mundial com a pandemia do CODIV-19, pensar com maior zelo no perfil dos egressos de Engenharia de Produção, levando em conta toda uma realidade hoje da indústria e governos, na necessidade de soluções em Manufatura Digital, modelos decisórios complexos e de ciência dos dados. A pesquisa operacional não é uma ciência trivial, simples, e precisa ser encarada como essencial nos cursos de Engenharia de Produção, apoiada por diversas disciplinas, tais como de programação computacional, estatística e álgebra linear, por exemplo. Não conseguiremos suportar, a médio e longo prazo, a escassez desses profissionais com a defasagem da pesquisa operacional e simulação nos currículos. Precisamos olhar com zelo os esforços na reversão dessa tendência de modo a uma melhoria do ensino nessas áreas para formar soldados mais aptos e fortes em Pesquisa Operacional no enfrentamento dessa e de outras guerras que por ventura poderão no acometer no futuro. Então, deixo a reflexão: que profissional de Engenharia de Produção realmente queremos formar para a nossa atual sociedade?

Referências:

* ABEPRO, A profissão. ABEPRO, 2020. Disponível em http://portal.abepro.org.br/a-profissao/.

* CONFEA. Resolução Nº 1.010, DE 22 DE AGOSTO DE 2005. CONFEA, 2005. Disponível em https://normativos.confea.org.br/ementas/visualiza.asp?idEmenta=550.

* CONFEA. Resolução Nº 235, DE 09 DE OUTUBRO DE 1975. CONFEA, 1975. Disponível em https://normativos.confea.org.br/downloads/0235-75.pdf.

* FARIA, Luiz H. L.; TEIXEIRA, R.B.; MEDEIROS, Rodrigo L. O Covid-19 E As Possibilidades De Reconversão Produtiva. Boletim de Divulgação Científica do GEMAD.net, 2020. Disponível em https://gemad.net/pt/18-categoria-pt-br/divulgacao-cientifica/74-o-covid-19-e-as-possibilidades-de-reconversao-produtiva.

* MEDEIROS, Rodrigo L.  A Logística Na Crise Do Covid-19. Boletim de Divulgação Científica do GEMAD.net, 2020. Disponível em https://gemad.net/pt/18-categoria-pt-br/divulgacao-cientifica/76-a-logistica-na-crise-do-covid-19. Acessado em 16 de Abril de 2020.

* SOBRAPO, O que é pesquisa operacional?. SOBRAPO, 2020. Disponível em https://www.sobrapo.org.br/o-que-e-pesquisa-operacional.

* TAHA, Hamdy A. Pesquisa Operacional. Ed. 8. Prentice Hall Brasil, 2008.

Sobre o autores

Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, Porto Alegre (2017). Mestre em Engenharia de Sistemas Logísticos pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo - Poli-USP (2011). Bacharel em Engenharia de Produção pela Faculdades Integradas Espírito-santense - FAESA (2008). Autor de capítulos de livros e artigos em eventos e periódicos nacionais e internacionais. Pesquisador Líder do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Gestão - NEPGEST. Pesquisador Líder do Grupo de Estudo em Manufatura Digital - GEM@D. Editor da RINTERPAP - Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (ISSN: 2675-6552). Docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo - IFES, desde 2013. Professor colaborador no Programa de Pós-Graduação em Gestão Pública da UFES e docente da pós-graduação em Engenharia de Produção com Ênfase em Tecnologias da Decisão. Tem foco em pesquisas no campo das Interdisciplinaridades, da Gestão Pública, bem como no campo da Pesquisa Operacional e tecnologias educacionais em diversas áreas: otimização linear, metas-heurísticas, simulação computacional, jogos sérios digitais e gamificação.

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